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Homilia de Dom Paulo Cezar Costa na posse canônica

No dia 6 de agosto, Festa da Transfiguração do Senhor e Primeiro Sábado do mês, houve celebração solene na Catedral de São Carlos, com a posse canônica de Dom Paulo Cezar.

Estiveram presentes os cardeais do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, e de São Paulo, Dom Odilo Scherer; o Arcebispo de Campinas e até então Administrador Apostólico da Diocese de São Carlos, Dom Airton José dos Santos, o recém nomeado bispo Monsenhor Moacir (pároco em Ibitinga e nomeado para a Diocese de Votuporanga), entre outros bispos e sacerdotes da diocese de São Carlos e também do Estado do Rio de Janeiro.

Transcrição da Homilia:

Senhores Cardeais, Dom Orani, meu pai no episcopado, irmão e amigo; Dom Odilo, Dom Airton, que administrou nossa Diocese por este tempo, nosso Metropolita; Arcebispos, Bispos, padres, padres da nossa Diocese, padres amigos que vieram da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, da Arquidiocese de Botucatu, da Diocese de Valença, e de outras partes desse Brasil. Irmãos e irmãs, amigos, meus familiares, meus familiares que vieram de Valença, da região ali; autoridades, autoridades do poder executivo, legislativo, judiciário. Amados e amadas de Deus: hoje inicio meu ministério na Diocese de São Carlos como seu 7º. Bispo. Entro numa igreja que possui uma grande história, uma grande tradição; uma Diocese centenária. Sou um elo neste belo e envolvente caminho da fé. Recebo uma grande riqueza que o Senhor construiu, através da doação generosa de bispos, padres, religiosos, religiosas, diáconos e leigos e leigas.

Os sinais da obra que o Senhor realizou se fazem visíveis através da vivacidade desta Igreja particular que recebo como seu 7º Bispo. Através dos traços da fé que impregnaram a cultura desta terra, os tantos monumentos que testemunham a fé deste nosso amado povo. O numeroso clero, dessa Diocese, os numerosos bispos e arcebispos que dela saíram  – ultimamente, Dom Moacir, Monsenhor Moacir, que foi eleito, o último, que terei a graça de sagrar em outubro… Os religiosos, religiosas, o laicato vivo que doa a vida através das pastorais, movimentos, associações, novas comunidades. E tantos outros.

Relembro os meus predecessores neste caminho: Dom José Marcondes, Dom Gastão Liberal, Dom Ruy Serra, Dom Constantino Amstalden, Dom Joviano de Lima, Dom Paulo Sérgio, Dom Airton, que administrou a Diocese durante este tempo…

Meus caros amigos e amigas: o que de mais importante trago na minha bagagem para vos oferecer e compartilhar é o mistério de Cristo, que é o centro da minha vida. Não sei viver sem Cristo. Repito com Paulo VI: “Tu nos és necessário, tu nos és necessário: sem Ti não sabemos e não podemos viver!”

A Palavra de Deus que ouvimos na Primeira Leitura nos apresentou uma imagem bonita do trono de Deus e de Deus mesmo; pois aquele ancião representa o próprio Deus. Imagem que nos consola, que nos faz perceber que Deus é o Senhor da História, que ele acompanha os fatos, os acontecimentos da vida do dia a dia.

A imagem do Filho do Homem se cumpre no Evangelho, que nos apresenta a centralidade de Cristo. Na montanha com Pedro, Tiago e João, contemplamos a beleza do Senhor. Entramos no mistério da sua Pessoa, da Sua divindade velada em sua Humanidade. Contemplamos uma beleza que salva, que dá sentido à nossa vida pessoal e ao nosso caminho de Igreja.

Primeiro, o evangelista São Lucas situa bem a cena que ouvimos. Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e sobe à montanha para orar. Lucas nos apresenta Jesus rezando. São Lucas quer dizer que este é um momento importante do ministério de Jesus. Enquanto orava, o aspecto do seu rosto se alterou, suas vestes tornaram-se de fulgurante brancura. O rosto de Jesus se torna bonito, radioso. É a beleza de Jesus que contemplamos.

São João Paulo II, na Novo Millennium Ineunte – aquele documento Novo Milênio que se inicia – pergunta: “Não é, porventura, papel da Igreja refletir a luz de Cristo em cada época da história? Fazer resplandecer o seu rosto diante das gerações do novo milênio?” Sim! Refletir a luz de Cristo é o grande papel da Igreja. A cena que contemplamos apresenta o rosto radiante, bonito, de Cristo. Cabe aqui a pergunta: Que face de Cristo estamos apresentando? São João Paulo II diz: “O nosso testemunho será pobre se não formos antes contempladores do rosto de Cristo”.

Sermos contempladores do rosto de Cristo: aqui está o segredo para o nosso caminho de Igreja, para o nosso caminho pessoal. Contemplando a beleza de Cristo, encontramos nele o verdadeiro sentido da vida humana. Em Cristo, o homem encontra o que é Ser Homem. Nele, o ser humano encontra o seu caminho, pois o mistério de Cristo revela ao homem o que é ser homem, pois Cristo é o Homem segundo o projeto de Deus. Ao homem, que corre o risco de perder o sentido do que é ser homem, pois vai perdendo sua origem e o seu destino, a Igreja lhe apresenta Cristo: ele é o sentido do homem; somente Nele encontramos a nossa verdadeira vocação.

Daqui emerge uma Igreja, uma Igreja que tem os olhos fixos em Cristo, que não se perde diante dos caminhos da História, pois é contempladora de Cristo. Está fixa n’Ele! Ele é o centro. Um segundo aspecto é a transformação da veste de Jesus, que se tornara de fulgurante brancura. A veste de Jesus é a Igreja; veste de um tecido só, como se vê no Evangelho de João, no capítulo 19, versículo 23.

São Cipriano, falando da unidade da Igreja, dirá: “Este sacramento da unidade, este vínculo de concórdia inviolada e sem rachadura, é figurada também pela túnica do Senhor”. Como se lê no Evangelho: ela não foi dividida, de modo algum rasgada, mas sorteada. Os apóstolos contemplam esta veste bonita, resplandecente: é a Igreja, na sua santidade, que será mais radiante, ou não, de acordo com o nosso testemunho, de acordo com a nossa doação. Pois na Igreja existe essa bipolaridade: de um lado, a santidade; ela é santa, ela traz em si todos os meios de salvação, é sacramento de salvação, mas ela se realiza na história, numa história concreta, numa história marcada pelo pecado, numa comunidade real. Ela se realiza concretamente em cada tempo, em cada realidade. Nós a edificamos. Quanto mais nos tornamos contempladores de Cristo, mais radiosa, bonita, a Igreja se torna!

Nosso caminho de Igreja deverá ser aquele de revelar a beleza da túnica de Cristo. Uma Igreja próxima do povo, que antes de grandes discursos, testemunhe aquilo que diz. Uma Igreja onde todos, cada um com sua especificidade, se doem com alegria. Uma Igreja que celebra bem, vive bem a sua fé, e pratica bem a caridade, pois como nos disse o Papa Emérito Bento XVI, “A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado do outro”. Uma Igreja que vive, uma Igreja que pela sua caridade manifesta sua fidelidade ao seu Senhor, pois a nossa fidelidade ao Senhor é medida pela nossa caridade, pela nossa capacidade de amar. Uma caridade operosa, que vai ao encontro dos pobres, das periferias existenciais, que se encontra lá onde as pessoas precisam sentir concretamente o amor de Cristo, que toca sua carne, sua concretude histórica, existencial. Pois o próprio Papa Emérito, Bento XVI, vai dizer: “A caridade pertence à natureza da Igreja, é expressão irrenunciável à sua essência”.

Uma Igreja Missionária, em Saída, como nos pede o Papa Francisco, onde todos – bispos, padres, diáconos, religiosos, religiosas, seminaristas, leigos e leigas – são comprometidos com o anúncio de Jesus Cristo. Uma Igreja da acolhida, que entre “sim” e “não”, contemple rostos individuados e realidades concretas que clamam por acolhimento – como fazia Jesus, que acolhe desde o oficial romano, que pede sua cura para seu servo; a samaritana, os leprosos, a mulher adúltera, que a Lei mandava apedrejar. Sim, uma Igreja que acolhe a cada um onde se encontra, e é capaz de lhe propor um caminho.

Uma Igreja que dialoga. Como é importante o diálogo para o caminho da Igreja e da sociedade! É através do diálogo que a sociedade cresce e se encaminham as soluções para os grandes problemas. O caminho e futuro de nossa sociedade se encontra no diálogo. E através do diálogo podemos fazer e realizar tantas coisas! O cuidado pelo planeta, que é tão urgente, que envolve a todos nós! A promoção do bem comum, e tantas outras coisas e tantos outros projetos, que nós podemos e devemos desenvolver através do diálogo. O diálogo exige respeito, a valorização do outro; uma visão alta do outro, uma visão alta e bonita das instituições. Dialogar significa ter a disposição de encontrar a todos, de encontrar crentes, crentes de outras igrejas, crentes de outras religiões e não crentes, os diferentes ambientes e mundos dessa nossa região, com o pressuposto de que onde existem pessoas pensantes, ali há as condições para o diálogo.

Deus já iniciou, naqueles que O buscam com o coração sincero, a Sua obra. O diálogo de Jesus com a samaritana mostra essa sede de Deus que há no coração humano. Uma sede que é às vezes inconsciente, mas que é fruto da ação escondida do Espírito de Deus nos corações.

Amados e amadas de Deus: devemos passar do rosto transfigurado de Jesus ao rosto da Igreja, à túnica de Jesus, essa túnica bonita, radiante, e nos empenharmos na construção de um rosto bonito, nos empenharmos em tornar a túnica de Jesus mais bonita, mais radiante. A santidade da Igreja nos compromete, compromete a cada um de nós. A beleza ou feiura do rosto e da túnica de Jesus está traçada no rosto de cada um de nós. Nós somos Igreja. Nós somos a Igreja. O rosto resplandecente da Igreja na história depende da doação alegre, generosa, bonita, de cada um de nós.

Moisés e Elias conversavam com Jesus. Moisés e Elias significam  a Lei e os Profetas. Significam o Antigo Testamento que se cumpre em Jesus Cristo. Jesus é o Centro das Escrituras. Jesus só pode ser entendido no contexto das Escrituras. São Lucas narra sobre o que conversavam: falavam da sua partida que iria se consumar em Jerusalém. Isto é, falavam da morte de Jesus, que se daria em Jerusalém. A morte é descrita com a palavra exodus, termo único no novo Testamento. Jesus é apresentado como o novo Moisés, que através do mar da morte, leva o novo Israel ao Reino dos Céus, para a Glória do Pai.

O Seu êxodo se realiza através da Cruz. A Cruz é central no cristianismo. Aqui nos encontramos no centro do Amor misericordioso de Deus, que a Igreja é chamada a expressar. Amor misericordioso que nós visualizamos através da imagem bonita de Jesus Bom Pastor. Do Bom Pastor que ama suas ovelhas, a ponto de por elas dar a Vida. E o bispo é aquele também, que configurado a Cristo Bom Pastor, é capaz de desgastar por amor das ovelhas, a sua vda, a sua vida pelo seu rebanho, a sua vida pelas suas ovelhas. O bispo é aquele que tudo suporta, como Paulo, pelos eleitos. Por aqueles que o Senhor lhe confiou, por aqueles que o Senhor lhe deu.

A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo.

Caminhei da residência episcopal até a Catedral com a cruz nas mãos. A cruz rememora a nossa redenção. São Carlos Borromeu, nos tempos da peste, em Milão, caminhava com uma cruz nas mãos, para que todos pudessem ver a Cruz e encontrar na Cruz de Cristo o significado e o sentido de seu sofrimento. Assim ele é lembrado pelo povo milanês. Não há cristianismo sem cruz. Não há seguimento de Jesus sem Cruz. A Cruz permanece o grande sinal da nossa redenção. É em Cristo morto e ressuscitado que está o sentido da Vida humana. Nele, o homem, a mulher, cada um de nós, encontra o seu caminho. O nosso caminho é segui-lo.

Da nuvem, o Pai nos revela quem é Jesus: Jesus é o Seu Filho Amado. Ouvi-o! O Pai nos convida a ouvirmos o seu filho. Ouvir Jesus, Como ouvi-lo hoje? Ele nos fala hoje através de Sua Palavra, da sua palavra proclamada em cada celebração, na oração, no irmão. Ele se dá a nós na Eucaristia. O Senhor continua a nos falar hoje. É preciso nos colocarmos na sua escuta. É ouvindo-o que se forma o coração do discípulo missionário. O Senhor continua a nos falar através das escrituras. São Jerônimo dizia: “Ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo”.

A Escritura forma o coração do discípulo missionário. Essa cena nos remete à centralidade das escrituras na vida da Igreja e na vida de cada católico. Ouvir o Filho Amado do Pai significa colocar a Escritura no centro. Implica iluminar e dar aos acontecimentos e à História um significado mais profundo. Significa colocar os fatos e acontecimentos de salvação – que num primeiro momento o sentido não é evidente – num contexto geral de história de salvação, que faz aparecer claramente o seu sentido. E como isto é importante hoje! Eu diria que isto é missão central da Igreja. Às vezes nós falamos de tudo, mas no nosso papel é apresentar uma visão mais profunda da história, das coisas, dos acontecimentos, uma visão segundo Deus. Uma visão do mundo, as ciências já dão, a sociologia já dá, as outras ciências já dão. A nós, cabe olhar e ler cada momento e se perguntar o que Deus diz para nós nesse momento. Quer dizer, iluminar os momentos, as situações concretas da história através da palavra de Deus. Ler os fatos, os acontecimentos, dentro e numa história de salvação.

A Escritura apresenta-nos os desígnios de Deus sobre o homem e sobre a história. Ouvir o Filho Amado do Pai significa o progressivo desenvolver-se do homem, desta clareza de Deus, da vida, da justiça, da verdade, da fraternidade. Permite enquadrar a totalidade daquilo que o que o homem pensa e deseja, no plano do espírito e da verdade, e dar um significado. É papel central da Igreja colocar esta riqueza da Palavra de Deus nas mãos dos seus filhos e filhas. Isso nós fazemos, isso se dá, através da leitura constante da Palavra de Deus na Escritura. Isso se dá através da leitura orante da Palavra de Deus, através dos círculos bíblicos, através das escolas bíblicas, através de tantas outras iniciativas desse gênero.

Hoje, subimos a montanha na companhia de Pedro, Tiago e João, e contemplamos a cena da Transfiguração. A montanha para nós é esta Catedral de São Carlos Borromeu, esta praça. Tomamos consciência de que esta glória da Transfiguração resplandece também em nós, Seus filhos e filhas adotivos. Daí a pouco voltaremos nossas dioceses, para nossas paróquias, para nossas casas, com o coração alegre, pois contemplamos esta belíssima cena da transfiguração: beleza que nos salva. Que esta experiência nos ajude no nosso testemunho de católicos, de discípulos missionários; que ela ilumine nosso caminho de Igreja e nosso anúncio do Mistério de Cristo. Amém.

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Comunidade Totus Mariae

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