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“Se não nos sentirmos pequenos, a fé será impossível”

João Paulo I

Em janeiro de 1965, Albino Luciani, então bispo de Vitório Vêneto, administrou um curso de exercícios espirituais aos sacerdotes das dioceses do Vêneto. O texto da palestra, inspirado na parábola do Bom Samaritano, mais tarde foi transcrito e publicado. Apresentamos um trecho no qual se refere à oração.

 

O Senhor nos faz muitas recomendações sobre a oração no Evangelho. Uma delas é a insistência. Não basta pedir uma vez. Não é como tocar piano: você aperta uma tecla, sai um som. “Senhor, dai-me esta graça.” E pronto, está servido! Os tambores batendo. Não é assim. O Senhor mesmo disse que não é assim: quero que vocês peçam.

Chegou a contar uma parábola. Havia um juiz iníquo numa cidade. Não se importava nem com Deus nem com os poderes mortais. Uma viúva ia vê-lo todos os dias: “Faz-me justiça, faz-me justiça!”. “Deixa-me! Não tenho tempo, não tenho tempo”. Mas a viúva voltava. Um dia, finalmente, o juiz disse consigo: “Essa viúva vem sempre me importunar e não me deixa em paz. Mesmo não temendo a Deus e não tendo nenhum respeito pelos homens, quero lhe fazer justiça, para que ela pare de me rondar”. A conclusão de Jesus Cristo: se um juiz iníquo, por motivos egoístas, faz isso, vosso Pai, quando insistirdes em lhe pedir que vos faça justiça, vosso Pai que está nos céus, que vos ama, não vos fará o mesmo?

E já ouvimos do Concílio: é preciso rezar sempre, rezar sem interrupção.

Nosso primeiro dever é ensinar o povo a rezar, pois quando lhe damos esse instrumento poderoso, ele mesmo se arranja para obter as graças do Senhor.

Não posso fazer um tratado sobre a oração, mesmo porque é possível que vocês saibam mais do que eu a esse respeito. Só apontarei algumas coisas.

Talvez nós insistamos demais na oração de petição: “Senhor, lembra-te de mim; Senhor, perdoa-me!”. Isso é muito bom! Mas Jesus, quando nos ensinou o Pater noster nos disse: “Rezem assim”, e dividiu sua oração em duas partes. A primeira: “Santificado seja o vosso nome, venha nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade”. Essa é a parte que diz respeito à nossa relação com Deus. Só depois se passa à segunda: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje, etc.”. Portanto, em nossas orações devemos seguir o mesmo método: fazer primeiro a oração de adoração, de louvor, de agradecimento; e só depois a de pedido.

Nas epístolas de São Paulo: “Gratias agamus, Deo gratias, Deo autem gratias…”. Essas expressões aparecem mais de cento e cinqüenta vezes, e não fui eu que as contei. São Paulo dá graças continuamente. Mas observem também as outras orações: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco”. Depois vem o pedido: “Rogai por nós, pecadores”. Primeiramente, se faz uma bela saudação a Nossa Senhora. É preciso ser diplomático: louva-se, depois se pede.

Os oremus antigos – os modernos, não – têm todos também, no início, o louvor, a saudação. Faz-se um belo louvor: “Deus qui corda fidelium Sancti Spiritus illustratione docuisti…”, e então: “da nobis quaesumus…”, vem o pedido. Ao contrário, hoje se diz: “Concedi nobis, famulis tuis…”; esse um oremus moderno: começa pedindo logo alguma coisa. Quem o compôs não entendeu nada, nada mesmo. Até as ladainhas de Nossa Senhora dizem: “Mater purissima!”, o elogio, e: “ora pro nobis”, o pedido; são todas assim. Devemos usar esse método nas nossas orações.

Devemos nos preocupar um pouco também… O Senhor não precisa das nossas preocupações, mas certamente lhe agrada que nos ocupemos um pouco dele. Há um livro muito bonito de padre Faber: Tudo por Jesus; não é uma obra ???elevada”, são coisas humildes; ele diz exatamente que precisamos nos preocupar com os interesses de Deus, antes de nos preocuparmos com os nossos.

Eu dizia: a adoração. “Tu estás lá nos céus, ó Deus imenso e onipotente, e eu, pequenino, estou aqui, Senhor”: esse sentimento de adoração, de maravilhamento diante de Deus. “Eu te devo tudo, Senhor!”: o agradecimento. Sentir-se sempre pequenos, míseros, diante de Deus. É preciso ajudar os fiéis a adorar, a agradecer ao Senhor. Ninguém é grande diante de Deus. Diante de Deus, até Nossa Senhora se sentiu olhada, pequena. É importantíssimo nos sentirmos olhados por Deus. Sentirmo-nos objetos do amor que Deus tem por nós.

São Bernardo, quando era muito pequeno, numa noite de Natal, adormeceu na igreja e sonhou. Teve a impressão de ver o menino Jesus apontando para ele e dizendo: “Olha ele aí, o meu pequeno Bernardo, o meu grande amigo”. Acordou, mas a impressão daquela noite nunca mais se apagou, e teve uma enorme influência sobre a sua vida. Sintamo-nos pequenos, pois somos pequenos. Se não nos sentirmos pequenos, a fé será impossível. Quem levanta a crista, quem se vangloria demais, não tem confiança em Deus. Tu és grandíssimo, Senhor; eu, diante de ti, pequeníssimo. Não tenho vergonha de dizê-lo. E farei de bom grado o que me pedires. Ainda mais porque sei que não pedes para tomar, mas para dar, que não pedes para proveito teu, mas em meu interesse!

Manzoni diz: “O homem nunca é maior do que quando se ajoelha diante de Deus”.

Falta cada vez mais nas orações o sentido da adoração. No entanto, essa é uma das posturas fundamentais de toda a religião cristã.

Fonte: 30 Giorni

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